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Leitura

O poder da palavra

Por Ewerthon Tobace

Quando fui escolher uma publicação para ler e fazer comentários, dei de cara com esse livro da Valéria Piassa Polizzi de novo e não pensei duas vezes. Reler foi a melhor coisa que já fiz

Capa de Depois daquela viagem, de Valéria Piassa Polizzi

A primeira vez que li Depois Daquela Viagem, de Valéria Piassa Polizzi, foi logo depois que terminei a faculdade. Lembro-me que fiquei impressionado com a história dessa jovem e indiquei para várias pessoas. É daqueles livros difíceis de parar de ler e que te marcam para toda vida.

Bem, Depois Daquela Viagem conta a história de Valéria (é uma autobiografia), que contraiu o HIV, causador da aids, com seu primeiro namorado. Na época com 16 anos, a garota conta como foi traumático esse seu primeiro amor.

Recheado de humor, a obra fala dos medos, angústias, dúvidas, relação com pais e amigos e o mais importante para mim: fala de vida e de como é importante agradecermos sempre por estarmos vivos e com saúde. “A vida é uma daquelas coisas tão presentes que passa despercebida. Às vezes nós precisamos quase perdê-la, ou achar que está por se perder, para lhe darmos o devido valor e dimensão. A vida está aqui e é para ser vivida”, insiste.

Filha de família rica, Valéria relata no livro sua experiência de vida nos Estados Unidos. As descobertas e aprendizados da jovem, muito bem descritas, nos dá uma visão mais ampla de como nós seres humanos somos absurdamente complicados e cheios de juízos de valores.

Foi através da palavra escrita que Valéria descobriu uma forma de passar sua mensagem e tentar acabar com o preconceito. “A palavra liberta. Ela pode até derrubar (pré)conceitos, como aconteceu no meu caso”, diz Valéria. “A palavra escrita, então, é mais forte. Quando escrevemos, pensamos e repensamos e, por mais avançada que seja uma idéia ou mais profunda que seja a reflexão, escrita ela amadurece e toma outras dimensões. A palavra comunica, emociona, fere. A palavra é uma das coisas mais humanas que nós possuímos. E foi ela que me ajudou a resgatar outra coisa tipicamente humana que eu, por ter me contaminado com o vírus da AIDS, havia perdido: a arte de projetar, de fazer planos”, ensina.

O livro foi lançado em 1997 e já foram publicadas 19 edições e vendidos mais de 200 mil cópias só no Brasil. A vida de Valéria também sofreu transformações importantes. A jovem escritora ganhou destaque na mídia e se tornou um dos símbolos de luta contra o preconceito em torno da aids.

A obra já ganhou versões em italiano, alemão e espanhol. “Quando comecei a escrever esse livro, eu só tinha um lápis, um caderno e a vontade de explicar muitas coisas”, conta Valéria. “Passei três anos pensando e repensando em cima do papel. Se isso já tinha sido para mim um grande aprendizado, publicar o livro e vê-lo tão bem aceito pelo público e pela mídia, depois de anos de tabu, só me deu mais forças para continuar o trabalho.”

O trabalho a que ela se refere é a série de palestras para jovens sobre a importância do uso da camisinha e sobre a doença. “Certa vez, cheguei a conversar com mais de 800 jovens num cinema municipal superlotado”, orgulha-se.

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